Houve um tempo em que duvidei que uma palavra sairia daquela boquinha. Dei água na colher de pau, rezei. E, ainda assim, ele apenas emitia sons que passavam longe de ser uma palavra.
Agora, pouco mais de um ano depois, estou aqui me fartando de tantas palavras saídas da santa boca de meu filho.
Algumas boas, outras nem tanto. Mas, todas impossíveis de acreditar. É lindo de ver a inteligência e a sagacidade na hora de utilizar termos que ele mal sabe o que significa. Da mesma forma em que fala que me ama docemente, me fala um "vai tomar no c*" na hora certinha, expressão que eu também usaria se estivesse no lugar dele.
Brigo com ele, explico que tem momentos certos de se falar o palavrão, que não pode falar para mulheres, nem pros mais velhos. Porém, mesmo assim, eu acabo sendo a maior vítima. E, muitas vezes perco a calma e o coloco de castigo. Então, ele passa um bom tempo sem falar. Mas, de repente, o bendito palavrão surge na boca de novo. Se não na dele, através da minha. Eu explico: dia desses, num brinquedo, um menino maior o empurrou e ele voltou chorando, dizendo: -"ele me empurrou e eu chorei..." - cheio de lágrimas nos olhos. E eu, naquele instinto materno-confuseiro, de TPM, louca pra fazer justiça da forma mais insana do mundo, falei pro Lucca: -"Então vou te falar, filho! É pra isso que serve o Vai tomar no c*! Não é pra falar pra mãe, pro pai. Quando alguém te empurrar assim de novo, você não tem que chorar. Você fala: Vai tomar no c* e segue em frente, tá?" E ele, fofamente, só ficava balançando a cabecinha em sinal positivo de quem está recebendo uma ótima instrução, de quem recebe as palavras mágicas de um oráculo, como um pupilo que ouve os sábios conselhos de seu mestre. Me arrependi assim que botei o ponto final na última frase. Mas, ele é um menino tão doce que sei que, pelo menos por enquanto, não seguirá o meu conselho, graças a Deus! Isso lá é coisa que mãe ensine pro filho?!
Mas nem tudo está perdido pois, a palavra mais dita por aquela boquinha não é um palavrão, nem uma ofensa, e sim a linda palavra: mamãe. Esta, sem sombra de dúvidas, essa ganha disparado!
Mas nem tudo está perdido pois, a palavra mais dita por aquela boquinha não é um palavrão, nem uma ofensa, e sim a linda palavra: mamãe. Esta, sem sombra de dúvidas, essa ganha disparado!
É mamãe o tempo todo. Se ele está bem, se está mal, se quer dividir uma alegria, se quer descontar a brabeza, se está com fome, se está com sede, se quer fazer cocô, se quer passear, se quer dormir. A mamãe é onipresente na cabecinha dele e merece saber de tudo e estar por dentro de todos os momentos de sua existência. Por isso, já que isso não ocorre por osmose, ele grita: Mamãe! e engata a informação. Lindo demais... se não acontecesse duas mil e quinhentas e trinta e seis vezes por dia! Mal sabe ele que mamãe não aguenta mais tanta informação, mamãe precisa de paz, de silêncio e está quase pegando um período de três horas num motel pra poder fazer uma refeição, tomar banho, fazer cocô, escovar os dentes, ver o jornal e entrar na internet sem ser interrompida oitocentas e vinte e sete vezes. Quando eu como ele quer fazer cocô, quando estou na internet ele quer comer e quando estou fazendo cocô ele quer tomar banho! E, ainda assim, tenho certeza de que seria a mulher mais infeliz do mundo se não estivesse passando por tudo isso. Pode? Estou enlouquecendo mas, estou mais feliz do que nunca. E ainda quero mais um filho!
E apenas para o papo dele querer fazer cocô assim que acabo de fazer meu prato na hora do almoço ficar mais hilário, passo duas informações: 1- amo comida quente, bem quente mesmo e, 2- quando a gente chega no banheiro, ele pega um livrinho, me entrega e diz: -Senta aí, mamãe!, apontando para o chão. E completa:-Conta uma historinha, por favor! ... Posso com isso?
